Anthony Minghella - O Último Guião PDF Versão para impressão
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Quarta, 25 Março 2009 18:09
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Anthony Minghella - O Último Guião
Com o ouro vem a consagração
Desfolhando imagens e páginas
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A sua grande paixão era a escrita, mas quis a História que ele ficasse conhecido como realizador de cinema. “Nunca me sinto mais próximo de mim do que quando escrevo. E nunca aprecio um dia, qualquer dia, mais do que um bom dia de escrita”*, confessou, no mesmo fatídico mês em que morreria, nove anos depois. Mas esse não foi o único capricho de destino a calafriar a nuca de Anthony Minghella, nos seus 54 anos de vida. O seu primeiro filme, «Truly Madly Deeply”, está, em vários níveis, intimamente ligado à sua morte precoce. A sua primeira aventura na Sétima Arte e a sua derradeira viagem rumo ao último dos mistérios, entrelaçados na linha da sina. E mais uma vez Oscar Wilde sorri, do fundo da sua tumba no Père Lachaise, ao ver a sua sentença, um dos mais gastos e citados aforismos do mundo, voltar a aplicar-se. A vida voltou a imitar a arte.

Anthony Minghella disse que nunca mais viu o filme, desde que o escreveu e realizou em 1990. Harvey Weinstein, seu produtor e amigo, duvida que tenha coragem de o voltar a ver. Eu vi-o na mesma noite em que escrevo estas linhas, 18 de Março, aniversário da morte do cineasta Inglês. E confesso-me atordoado. Talvez seja o horrível Chianti que sorvo – em honra das terras italianas onde Minghella “se sentia mais feliz”, talvez seja da Suite Nº 3 de Bach – “a bússola pessoal” de Minghella - que já soou tantas vezes esta noite nesta sala vazia que desconfio que para sempre ecoará nas suas paredes. Talvez seja do tropeção no saliente e arrepiante paralelismo entre criador e criação que “Truly Madly Deeply” encobre.
E talvez seja melhor começar pelo início.

O despontar da arte


A paixão para o cinema despertou ao melhor estilo cinéfilo: À la “Cinema Paradiso”. Tudo começou em Isle of Wight, uma pequena ilha na costa sul da Inglaterra, onde Minghella nasceu em 1954. Os pais do cineasta, imigrantes italianos, possuíam um café, humilde e pitoresco, onde o pai vendia gelados de fabrico caseiro. Do outro lado da parede, estava o cinema local.

O projeccionista alugava dois quartos nas traseiras do edifício da família Minghella. E desenvolveu-se uma cumplicidade que levaria o pequeno Anthony à cabine de projecção, todas as matines de Sábado. Era o amanhecer de uma arte nos horizontes de um menino gordinho e traquina, que encontrava a paz na luz que atravessava a escuridão e se fundia numa tela, que retribuía oferecendo mundos e universos.
Mais tarde, nos anos de adolescente e de descoberta das meninas, o destino passou a ser a última fila do cinema. “Tentava, desalentadamente, inutilmente, explorar dois desejos em simultâneo”, confessou Anthony Minghella.

E assim foi. Anos, décadas antes da obra-prima de Tornatore enternecer audiências mundo fora, num pedacinho de terra perdido no Atlântico Norte, Minghella apaixonou-se pela Sétima Arte. Mas o seu coração era artisticamente polígamo. Outras paixões, até maiores, se seguiriam.

 

Exorcizar demónios com água artística


“Fui um adolescente infeliz, zangado, rebelde”. Ao olhar para trás, Minghella recordava os atritos que o consumiam. E os bálsamos que o acalmavam. A maior parte dos seus amigos tinha um diário no quarto. Anthony tinha um piano. “Era só aquele piano que exorcizava os meus demónios”. Começou a escrever e compor música aos 15 anos. A criação tornou-se o seu escape. “Através da criação eu podia celebrar o que era diferente em mim, em vez de pedir desculpa”, disse.

A música passou a vício. Alastrou-se pelas suas veias, tornou-se parte do seu ser, acompanhou o bombear do seu sangue, o temperamento do seu espírito. Mas rápido a passividade passa a actividade. Os verbos acompanhar e guiar fundem-se, confundem-se, misturam-se. E o consumo, esse aumenta. “Vai-me ser impedido o acesso ao Céu por causa dos CDs que possuo e da gula que tenho por todos os tipos e cores de música”, penitenciou-se Minghella.

Questionado sobre a sua maior fonte de inspiração musical, o realizador inglês nunca hesitava: “Bach, que é a minha bússola”. Mas era intenso o seu ecletismo, impelindo a sua audição à tentação das mais variadas orgias genéricas. “Tão depressa estou apaixonado por John Coltrane como por Mozart”, afirmou.

Imerso nessa paixão híbrida, criou um harém para acolher escrita e música. Ouvia música húngara, árabe e italiana pós-guerra, enquanto escrevia “The English Patient”. Opera e Jazz durante “The Talented Mr. Ripley”. “É uma viagem incrível, seleccionar a música certa para a escrita”, dizia.

E é a escrita a sua maior perdição. É ela a odalisca que lhe dá mais prazer, o toque que melhor lhe acaricia os sentidos, o amor assumido entre todas as outras paixões. “I write because I am”, afirmou, estóico e resoluto.

Começou por escrever músicas e peças de teatro. Com o tempo, a frustração começou a interiorizar-se. O seu íntimo nutria um sentimento de perda por entregar o seu fruto de criação a outras mãos, como um pai que entrega um filho para adopção, sentindo que não fez tudo o que poderia fazer pela sua educação, pelo seu amadurecimento, pela sua consolidação enquanto homem, enquanto obra. E assim, Minghella decide assumir também as rédeas da realização. E nascia “Truly Madly Deeply”. Mais do que uma estreia, uma epifania: “foi um desafio de vida para mim, pois percebi que isso [escrever e realizar] era o que eu deveria ter feito desde sempre”.

Filmado em 28 dias – o mesmo tempo que Minghella levou a efectuar a pesquisa dos locais de filmagem de “Talented Mr. Ripley” – e com um orçamento de 600 mil dólares, o filme ganhou notoriedade. Uma assistente da produtora Miramax entregou uma cópia a Harvey Weinstein, instruindo o produtor a ver o filme o mais rápido possível. Weinstein acedeu à sugestão. Viu, riu, chorou. No dia seguinte, telefonou a Minghella:
- “I must have your movie.”
- “You’re too late”, replicou o realizador.
- “I’ll never be late for you again”.
Harvey Weinstein cumpriu a promessa. Desde então, produziria os restantes filmes de Anthony Minghella (à excepção de “Talented Mr. Ripley”). E o instinto e faro predador de produtor não se enganaram. Seis anos depois daquela conversa, ambos levariam um Oscar para casa.

«Truly Madly Deeply” venceu 15 prémios internacionais, incluindo um BAFTA para melhor argumento e inúmeros galardões para o trabalho magistral da actriz Julie Stevenson - amiga intima de Minghella para quem o filme foi intencionalmente moldado e escrito - entre os quais um atribuído na edição de 1992 do Fantasporto.

O filme ganhou estatuto de culto, um pouco por todo o mundo. Para onde quer que Minghella viajasse, encontrava fãs que lhe citavam linhas inteiras de diálogo do filme. “Comecei a sentir-me assombrado por ele”, disse o realizador, num momento de descontracção. “É um filme muito privado e íntimo, nas mais variadas formas. Sinto uma grande nostalgia por ele e pela sua simplicidade”, afirmou Minghella, 10 anos depois da sua criação e oito antes da sua própria extinção.

 



 

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